Durante décadas, as doenças cardiovasculares, com grande destaque para o infarto agudo do miocárdio e o acidente vascular cerebral (AVC), ocuparam de forma isolada o topo do ranking das principais causas de mortalidade no Brasil e no mundo. No entanto, o cenário da saúde pública está passando por uma profunda transição epidemiológica, e as projeções médicas e estatísticas indicam que o câncer está em vias de assumir o trágico posto de principal causa de morte no país. Essa mudança de paradigma não significa necessariamente que o coração deixou de ser uma grande ameaça, mas sim que uma complexa combinação de avanços médicos e mudanças demográficas está alterando drasticamente o perfil de adoecimento da nossa população.
O principal motor dessa virada estatística é, paradoxalmente, o reflexo de uma boa notícia: o brasileiro está envelhecendo e a expectativa de vida aumentou. O câncer é uma doença fortemente associada ao tempo, decorrente do acúmulo de mutações genéticas e danos celulares ao longo de décadas. Com a melhoria no controle de doenças infecciosas e, principalmente, com a verdadeira revolução nos cuidados cardiológicos — que hoje conta com tratamentos altamente eficazes, cirurgias de ponte de safena, stents e medicamentos muito acessíveis para controle de pressão arterial e colesterol —, as pessoas estão sobrevivendo às ameaças do coração. Consequentemente, vivem tempo suficiente para que o risco oncológico inerente ao envelhecimento se manifeste.
Paralelamente ao fator idade, o estilo de vida contemporâneo atua como um poderoso acelerador dessa curva ascendente de diagnósticos oncológicos. Fatores de risco modificáveis e altamente prevalentes na sociedade moderna, como a epidemia de obesidade, o sedentarismo crônico, o alto consumo de alimentos ultraprocessados, além do tabagismo e do consumo regular de álcool, têm relação direta com o surgimento de diversos tipos de tumores. Enquanto a medicina encontrou ferramentas farmacológicas eficientes para proteger o sistema cardiovascular de forma preventiva (como as estatinas), a prevenção do câncer esbarra na necessidade de mudanças comportamentais e de hábitos diários que são muito mais difíceis de serem implementadas e mantidas pela população em larga escala.
Diante dessa nova e iminente realidade, o desafio que se impõe à saúde pública e individual no Brasil não é apenas descobrir novas curas, mas mudar radicalmente a cultura de prevenção e diagnóstico. Embora a oncologia esteja vivendo uma era de inovação impressionante com o advento das terapias-alvo e da imunoterapia, a detecção em estágios avançados continua sendo o maior obstáculo para a cura. Para enfrentar esse “novo assassino número 1”, é urgente que a conscientização sobre o rastreamento precoce — através de exames de rotina como mamografias, colonoscopias e avaliações de próstata — ganhe a mesma força e urgência que a prevenção do infarto conquistou nas últimas décadas.