Quando falamos sobre tumores cerebrais, é fundamental fazer uma distinção clínica crucial: as lesões mais frequentes encontradas no cérebro não nascem nele. As metástases cerebrais (ou tumores secundários) representam, de longe, a maior incidência de neoplasias no sistema nervoso central. Elas ocorrem quando células cancerígenas de tumores primários em outras partes do corpo — classicamente dos pulmões, mamas, rins, trato gastrointestinal ou melanomas — disseminam-se pela corrente sanguínea e se instalam no tecido cerebral. O manejo desses quadros exige uma abordagem estritamente multidisciplinar com a oncologia, pois o planejamento cirúrgico ou radiocirúrgico depende diretamente do controle da doença sistêmica de base.
Se analisarmos estritamente os tumores primários — aqueles que se originam das estruturas do próprio crânio —, o meningioma assume o topo do ranking como o mais comum. Em sua imensa maioria, são tumores benignos, de crescimento muito lento, que nascem nas meninges (as membranas que revestem e protegem o cérebro e a medula). Como eles crescem empurrando o tecido cerebral em vez de invadi-lo, muitas vezes atingem volumes consideráveis antes de gerar sintomas compressivos, como dores de cabeça ou crises convulsivas. São mais prevalentes no sexo feminino e, dependendo do volume e da localização exata, o tratamento pode variar desde a observação clínica seriada (wait-and-scan) até a ressecção microcirúrgica completa.
Dentro do grupo dos tumores primários malignos, o glioblastoma (um tipo de astrocitoma de grau 4) é o mais comum e, historicamente, o mais desafiador da neuro-oncologia. Os gliomas se originam nas células da glia, que são responsáveis pela sustentação e nutrição dos neurônios. Diferente dos meningiomas, o glioblastoma tem um padrão de crescimento altamente infiltrativo, ramificando-se microscopicamente em meio ao tecido cerebral funcional e sadio, o que impossibilita uma cura apenas com o bisturi. O protocolo padrão exige uma ressecção cirúrgica com a máxima extensão segura, seguida impreterivelmente por radioterapia e quimioterapia adjuvantes para tentar frear a replicação celular.
Fechando o escopo das lesões mais corriqueiras no consultório, destacam-se os adenomas de hipófise e os schwannomas (como o neurinoma do acústico). Os adenomas surgem na glândula pituitária, na base do crânio, e se manifestam basicamente de duas formas: produzindo hormônios em excesso (causando síndromes endócrinas) ou crescendo o suficiente para comprimir o quiasma óptico, gerando perda do campo visual. Já os neurinomas do acústico nascem na bainha das células de Schwann que revestem o nervo vestibulococlear, causando surdez unilateral progressiva, zumbido e desequilíbrio. Ambos são essencialmente benignos, e o sucesso do tratamento reside no diagnóstico precoce e na descompressão anatômica precisa, visando à preservação máxima das funções neurológicas do paciente.